Os livros de viagem sugerem novas experiências, inspiram e propõem desafios. Ler é viajar também. Destinos não conhecidos ou conhecidos. Quando não dá para fazer as malas, a literatura de viagem nos tira do lugar com a imaginação. Os livros aguçam a viajar mais e provocam curiosidade.

A literatura de viagem é muito mais que isso. A compreensão sobre o percurso histórico de muitos países passou pelo olhar do viajante e de seus livros, diários. Um bom exemplo é os vários relatos “pós-descobrimento” do Brasil, com a representação que esses estrangeiros faziam do local.

Todos tem em comum nos levar para uma viagem. É verdade também que nos tornam mais inspirados. Trata-se de uma forma de viagem. Podem ser poderosos na vida!

Livre, de Cheryl Strayed ( (Wild, no inglês) é um livro que conta a história de uma mulher que, após a morte da mãe por câncer e um divórcio, decide fazer a famosa Pacific Crest Trail.

Trilhas nos Estados Unidos

Essa é uma trilha de longa distância dos Estados Unidos que começa no Deserto de Mojave – fronteira com o México, na Califórnia e se estende até Washington – fronteira do Canadá. Estraçalhada por tantos acontecimentos ruins e com um comportamento autodestrutivo, Cheryl decide fazê-la para “se salvar”, como descreve. O livro é autobiográfico. Cheryl Strayed tinha 26 anos e percorreu aproximadamente 1600 quilômetros (em linha reta) em três meses. O filme tornou-se filme em que Reese Witherspoon é quem faz o papel da Cheryl!

Cheryl não era trilheira e jamais havia feito qualquer trilha extensa na vida. Ela aprimora seus conhecimentos, aprende a usar melhor os equipamentos, conhece mais sobre a natureza e percebe melhor a si mesma durante o seu trajeto. Como isso não é inspirador? Especialmente nos dias de hoje em que muitas pessoas acreditam que para fazer “coisas” como essa, é preciso ter algum expertise. Cito uma passagem:

“Agora que estava ali, descalça naquela montanha da Califórnia, realmente em outra vida, parecia que tinham se passado anos desde que tomei a discutível e insensata decisão de fazer uma longa caminhada sozinha na PCT para me salvar. Quando acreditei que todas as coisas que fui antes me prepararam para esta jornada. Mas nada tinha ou poderia ter me preparado. Cada dia na trilha era a única preparação possível para o dia seguinte. E, ás vezes, nem mesmo o dia anterior me preparava para o que viria a seguir.” (Strayed, 2013, p. 15)

O livro também nos leva por um incrível passeio pelos Estados Unidos natural. Ao longo da Pacific Crest Trail há diversos parques naturais constituídos. Joshua Tree, Crater Lake, Mojave National Preserve entre outros.

Livre (Wild) trouxe um efeito de popularidade impressionante para a PCT, de acordo com o Mashable. Esse percurso nunca foi tão frequentado!

Mulher viaja sozinha

E tem mais: mulher viajando sozinha! Naquela época, pouquíssimas mulheres tinham feito sozinhas a PCT. Vamos encarar essa?

Naturalmente mulheres são posicionadas em situações de dúvida e de inferioridade, criando mecanismos de desigualdade de gênero quando decidem fazer algo sozinha. Viajar sozinha é uma dessas situações! Não conseguimos? Não podemos? Não damos conta? O próprio fato de nossa segurança ser colocada em risco em viagens por sermos mulheres é absurdo. O machismo nos paralisa! Na sua rota da PCT, Cheryl se depara com uma situação que ela é constrangida com “cantadas” por um homem e, com efeito, aflige-se. A narrativa desse acontecimento traz tensão e mostra toda a violência psicológica desse tipo de contexto.

Por isso, ler “Livre” torna-se uma força motriz do feminino em viagem. Trata-se de mergulhar nos próprios desejos. Mulheres podem e devem viajar sozinhas. E lembre-se a escritora é mulher! Leia mais mulheres!

O livro “Livre” de Cheryl Strayed é sobre testar os próprios limites, se superar, sobre recomeços. Já pensou o quanto uma viagem é capaz de nos mudar? O quanto uma jornada pode nos fazer curar tantas dores? É muito mais que a jornada de uma trilha. É sobre se encontrar.